O “EU” e a estrada dos tijolos dourados

Introdução

Vivemos em dias difíceis onde o tempo e a fome voraz por produção consome nosso tempo e, resignados, aceitamos a escravidão do TER em detrimento do SER.

Com base na coragem, razão e emoção deve ser possível mudar, ainda que em parte a visão de homem atual em busca da felicidade.

O cenário atual

O sistema capitalista nos moldes do neoliberalismo impulsiona o ser humano a ter uma postura altamente competitiva e egocêntrica calcada no verbo ter.

Devemos ter, consumir, produzir e aceitar resignados todas as imposições da máquina produtiva.

Somos convencidos por todos os meios de comunicação existentes de que somente seremos felizes quando atingirmos os mais altos salários após os cumprimentos de metas de produtividade que aumentam num ritmo além das capacidades fisiológicas, mentais, sociais e espirituais.

Devemos ser bons cordeiros em cercados, cubículos produtivos, focados em nossas métricas de produção.

Ganhamos algum dinheiro mas há sempre a sensação de que falta produzir mais um pouco.

Nossa carga horária de trabalho ultrapassa os limites do cansaço e as 24 horas de um dia parecem ser insuficientes para atingirmos todos os objetivos que aceitamos sem os devidos questionamentos.

Ficamos apavorados com a possibilidade de sermos substituídos por outros humanóides mais jovens e melhor preparados para o dragão do mercado de trabalho.

Nos dias atuais, não basta “matar um leão por dia” para sermos considerados aptos a permanecer em nossas colocações laborais e deixamos nossas esposas, maridos filhos e parentes em planos secundários de importância para satisfazermos o apetite voraz da máquina produtiva.

Em contrapartida, nossos governantes gerenciam a miséria oferecendo assistência social aos desfavorecidos para que se tornem também membros consumidores dessa cadeia alimentar da produção desenfreada. Esses usurpam o dinheiro público em favorecimentos pessoais. Usam os recursos destinados ao investimento na ‘evolução e bem estar’ da sociedade em destinos particulares com foco na própria evolução monetária e bem estar pessoal. Aceitamos essas coisas com a mesma indignação que usamos para calçar nossos sapados ao levantarmos pela manhã.

Podemos ser interrompidos em nossos horários de lazer com algum assunto urgente de trabalho.

Comemos em restaurantes “fast-foods” para não perdermos um único minuto de nosso tempo produtivo e, mesmo durante as refeições rápidas, somos interrompidos com o toque urgente do celular corporativo nos chamando a algo que não pode esperar uns míseros 15 minutos para ser resolvido.

Projetamos nossa felicidade em itens palpáveis que podemos comprar numa liquidação qualquer e acreditamos piamente que seremos felizes apenas quando tivermos aquela casa, aquele carro do ano, aquele telefone celular de última geração, aquele computador recém-lançado no mercado e que estará completamente obsoleto em menos de 3 meses.

Pedro Goergen [1] diz que “O primeiro e mais palpável reflexo da falta de perspectiva histórica se constata no enfraquecimento do sujeito.” e este parece ser um bom resumo da característica comportamental do homem dito “produtivo” nos moldes do sistema atual. Permitimos que nossa individualidade fosse consumida ou anulada para que o bem do sistema prevaleça e trocamos, num modelo próximo ao escambo, nossos anseios de satisfação por bens de consumo que nos satisfaça a frustração de deixar de lado nossos anseios de felicidade.

Segundo Manuel José Lopes Silva [2], “Desde Aristóteles que as máquinas foram

tradicionalmente consideradas como extensões artificiais das capacidades naturais do ser humano, como projecções dos nossos órgãos corporais.

Hoje em dia, com a introdução dos computadores, surgiu a tendência para descrever as acções humanas ou os processos naturais em termos algorítmicos para poderem ser simulados

informaticamente”. Assim, todas as “coisas produtivas” têm sido sistematicamente convertidas em processos produtivos e otimizados.

O desafio

Há de se considerar por base a eterna busca da “pedra filosofal” na qual o homem dissimula a busca pelo autoconhecimento. Este objetivo, em contraste com o cenário apático em que o homem se resigna à cadeia produtiva faz com que o homem sinta-se infeliz e perdido pois sua percepção de humanidade raspa às beiras da transformação em mero objeto autômato, seguidor de ordens e doutrinas.

Fazemos hoje o caminho inverso da “estrada dos tijolos dourados” descrito no livro de Lyman Frank Baum [3], “O mágico de OZ”. Passamos pela vida fazendo o papel inverso dos personagens descritos nesse livro. Ao inverso do Leão, deixamos nossa coragem ceder lugar ao medo da não aceitação. Ao inverso do Espantalho, entorpecemos nosso cérebro e realizamos cada vez mais tarefas meramente operacionais a fim de que o bem maior, o cumprimento das metas, seja alcançado. No pior dos moldes, ignorando os ensinamentos do Homem de lata, deixamos morrer nosso coração, nossa alma e tornamo-nos cada vez mais tecnicos. Desta forma, nossa Dorothy jamais poderá retornar ao “lar” do seu eu-interior.

A pergunta que este documento pretende fazer é: Haverá meios de o homem conseguir encontrar-se vivendo neste ambiente viciado?

O caminho dos tijolos dourados

Ao mesmo passo da personagem Dorothy, estamos perdidos num mundo totalmente desconhecido repleto de informações e conceitos totalmente novos e com um tempo muito escasso para conseguir “retornar ao lar”.

Iniciamos a caminhada com uma dica precisosa : “Siga a estrada dos tijolos dourados” e a iniciamos, sozinhos em busca do “auto-conhecimento”.

Ao longo do caminho nos deparamos com profundas dificuldades interiores cujos arquetipos são ilustrados nas figuras do leão medroso, no espantalho e no homem de lata.

Não há opção para seguirmos adiante ignorando os aspectos, cada um ao seu tempo, da coragem, da razão e da alma.

Por fim, o sistema pode tentar nos impedir mas, quando nos percebemos fortes e capazes racional e emocionalmente, encontramos finalmente o “sentido da vida”.

Há de se lembrar, porém, que não podemos fazer tal caminho sem a ajuda dos outros. É com as diferenças que aprendemos e refinamos a visão de homem que desejamos formar.[1]

Considerações finais

Diante de um cenário de apatia e egocentrismo, cabe a cada um tentar trilhar a sua “estrada dos tijolos dourados” em busca do seu conhecimento.

O caminho é longo e o tempo é curto mas com coragem, razão e emoção ao fim da jornada poder-se-á dizer “não há melhor lugar que o lar”.


[1] talvez por isso Lyman tenha personificado os aspectos a serem trabalhados em personagens diferentes.


Referências

[1] Goergen, P., EM FOCO: A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO ENFRENTANDO A PROBLEMÁTICA EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEA, http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-97022006000300011&script=sci_arttext&tlng=pt, aceso em 12/11/2007.

[2] Lopes Silva, M.J, As ciências do homem e da natureza de hoje, http://www.bocc.ubi.pt/pag/silva-lopes-ciencias-homem-natureza.pdf, acesso em 12/11/2007

[3] vários, O MARAVILHOSO MÁGICO DE OZ, http://pt.wikipedia.org/wiki/O_M%C3%A1gico_de_Oz, acesso em 12/11/2007.

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