(mais) Reflexões sobre educação inclusiva

A educação inclusiva precisa ser conduzida muito além das portas do legislativo. Leis que garantem o direito à educação às pessoas com necessidades educacionais especiais já existem e, ainda que forçosamente, há um esforço efetivo em que essas leis “peguem”, como se diz cá no meu lindo Brasil varonil [sic][1].

O que falta para que essas leis peguem? Digo-lhe que falta “atitude cidadã” da minha parte, da sua parte, da nossa parte, de parte dos membros da APM, Escola da família, da Família, da Escola… enfim, da sociedade.

O que entendo por atitude cidadã é a capacidade de olhar para o outro bem à sua frente, se por em seu lugar, imaginar quais são as suas necessidades e, ao entender como eu posso atuar de forma positiva para facilitar seu acesso às suas necessidades.

Olhar para alguém com qualquer necessidade especial não é agradável, choca, fere o nosso senso de estética e praticidade. Fere nosso ‘bem estar’ que nos arrebata a uma poltrona confortável em frente ao jornal vespertino ao admirar as desgraças alheias que estão longe e não me ‘tocam’. Pôr-se em seu lugar, então? NEM PENSAR! Jamais! Deus que me livre e guarde! (e ainda vamos comungar na missa dominical com a consciência tranqüila, pois a desgraça não nos acompanha). E este ‘sentimento’ faz com que, mesmo de forma inconsciente, ajudemos a alimentar a falta de vontade da nossa sociedade em promover o bem estar de todos. “Todos”, nesse contexto, incluem os portadores de necessidades especiais de aprendizagem, locomoção e cidadania.

Nossa sociedade movimenta-se ao mesmo passo de um paquiderme quando o assunto é inclusão. As ruas não incluem os cadeirantes, pois demandam obras e recortes nas nossas belas calçadas ladrilhadas de pedra portuguesa. A escola não inclui os ‘retardados’ pois demandam um custo maior de tempo e profissionais para que este possa figurar de forma tranqüila (e muitas vezes, maquiada) nos números dos indicadores de desempenho da escola. E os que são conscientes, inteligentes, mas detém uma falha em sua coordenação motora? Esses sofrem calados após tentarem (em vão) provar que estão entendendo as maldades veladas atiradas a eles em cada subestimação de suas capacidades e competências.

Torcemos o nariz quando nos deparamos com situações “fora do padrão” de normalidade definida pela média. Quaisquer dos que estejam nas extremidades serão rejeitados por estarem ‘longe’ do desvio padrão.

O motivo de algumas leis não “pegarem” é a incorporação inconsciente da lei do “Mais do Mesmo” , vulgarmente desconhecida como “Lei da aceitação da média”. É essa lei que determina a nossa falta de aceitação dos ‘pontos fora da curva’. Aceitar qualquer fato que esteja a uma distância maior do que “três vezes o desvio padrão”[2] é uma desobediência mortal à regra magna de estar na média. Quando obedecemos essa lei, deixamos de fora do “espaço amostral” quaisquer valores que não correspondam aos observados numa certa tolerância em relação ao valor médio.

É pela média que somos tratados e que tratamos os demais (será por reação, como manda a tal Lei de Newton?). E uma força extrema implica em uma reação de igual intensidade no sentido contrário[3]. Uma visão fora da média nos remete à uma reação de rejeição injusta. E é exatamente neste ponto que devemos atuar para começar nossa jornada rumo à aceitação das diferenças.

Nós podemos, a partir de atitudes virtualmente simples, acelerar o nosso paquiderme social ao tentar deixar nosso preconceito se dissolver e olhar para cada ser humano especial de forma a colaborar com sua inclusão real na sociedade. Devemos quebrar o paradigma do “mais do mesmo”. Ao nos despirmos dessas premissas incorporadas às nossas atitudes (premissas essas que devem funcionare somente no campo científico) podemos agir de forma mais ‘emocional’ e isso deve refletir em como as pessoas passarão a tratar esses ‘escolhidos’ e lhes permitam ter acesso aos seus direitos já adquiridos.

Referências

Werneck, C. (1996, 09 14). Um tiro no preconceito. Retrieved 05 25, 2008, from Banco de Escola: http://www.bancodeescola.com/tiro.htm


[1] Onde já se viu! Uma Lei tem de “PEGAR”? Fazer Sucesso? Cair no “gosto popular” para ser cumprida? É triste mas é a nossa realidade.

[2] Norma estatística de rejeição de valores que puxam a média para um dos extremos da distribuição normal, ou Gaussiana.

[3] Praticamente o enunciado da tal Lei de Newton.

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