A coisificação das pessoas

“[…] Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante, sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente”.

(Trecho de “Eu, etiqueta”, de Carlos Drummond de Andrade, da obra: O corpo,

Rio de Janreiro: Record, 1994 ).

 

O poeta retrata o impacto da sociedade da informação sobre a pessoa que antes era um indivíduo e agora é tratado como coisa, alvo ou parte de um “market share”, um segmento ou qualquer elemento de taxonomia social onde seu perfil possa ser encaixado.

A principal influência descrita no poema é o do conceito da “sociedade do espetáculo” de Debord (Guy Debord) que trata da forma pela qual os princípios do mercado são executados em nossa sociedade capitalista. No entanto a condução das ações e táticas que garantem a geração de tal retrato infame é, em meu ponto de vista míope, responsabilidade do “novo príncipe” que sequer quer ser amado ou temido. Para este, basta realizar o poder sobre os ‘indivíduos transmutados em coisas’ – é mais fácil dominar um a um do que um grande organismo social.

Se vista sob a ótica da sociologia, o principal risco aventado por esse retrato do indivíduo tornado coisa pela práxis do mercado (da comunicação) é a dissolução ou a deformação do indivíduo em sua essência de ser que se relaciona com outros em grupos ou nichos sociais nos quais está(va) inserido.

A segmentação é o principal fator de diminuição da condição social do indivíduo. Já sob a ótica das ciências jurídica, política e econômica, é pertinente a apreciação desse cenário exposto pois é com base nessas visões que se permite (ou não) consolidar os mecanismos necessários para que nem a sociedade, nem o indivíduo e tão pouco o mercado sejam dissolvidos em anarquias isoladas e inoperantes do ponto de vista social.

Em suma, as áreas da ciências humanas – em especial a sociologia – devem conduzir, com seus conceitos, as ações intelectuais (e práticas) necessárias que permitam impedir ou minimizar a “coisificação” das pessoas.[1]


[1] A palavra é horrorosa, mas não encontrei algo melhor para descrever objetivamente o conceito de ‘tornar as pessoas em coisas’. Perdoe-me pelo neologismo barato.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s