Filme: Inteligência Artificial

O filme é ambientado em uma época futura, fictícia mas provável, onde os recursos ambientais são escassos e um governo central impõe restrições severas aos humanos tais como uma espécie de ‘racionamento de procriação’. Nessa época onde a sociedade é composta por duas ‘espécies’, os organs (orgânicos) e os Meca (mecânicos – robôs) um conjunto de cientistas discute a produção de um novo tipo de robô que seja capaz de “amar”, isto é, “sentir amor” por uma pessoa ou uma família.mês O projeto é aceito e após alguns meses o primeiro protótipo fica pronto para envio a uma família.

A família formada por Henry e Mônica que perderam seu filho devido a uma doença terminal decide (na verdade, o marido decide já que a mulher encontra-se em uma depressão profunda pela perda de seu filho) realizar um teste com esse novo “meca” já que as restrições legais impede-os de gerar outro filho.

O casal passa a conviver com este robô. A condição do teste implica em um processo de decisão para ativar o “sistema completo e irreversível de amor” no robô a partir da pronuncia de sete palavras pré-programadas e tal decisão deveria ser tomada se e somente se a decisão fosse definitiva posto que o “sistema completo de amor” não poderia ser apagado e o destino do robô seria destruído em caso de desistência.

Durante a fase de testes, Mônica se encanta por seu filho-robô e decide ativar o pacote completo de amor irreversível. Uma situação acidental obriga-os a a devolver David para seus fabricantes mas como Mônica se recusa a devolvê-lo a fábrica o casal abandona o filho-robô no meio de uma floresta.

O filme é dividido em duas partes: a chegada de David e o seu abandono na floresta.

A primeira parte tem um apelo sentimental (drama) que explora as dores, angústias dos pais que tentam substituir a perda de seu filho com a ‘substituição’ pretendida pelo robô. Parece natural que esta combinação tenda a culminar no abandono da máquina posto que não há, ao menos por enquanto, aceitação de que um robô possa substituir uma vida que tenha terminado (ainda mais ao se tratar de um filho).

A “Brincadeira de Deus”, em gerar uma caricatura do ‘homem’ cujos sentimentos podem ser ‘programados’ e ‘ativados’ por uma chave completamente sem sentido em palavras soltas e desconectas são, a meu ver, uma piada de mau gosto que denota a imaturidade humana ao tentar pular as etapas da construção de um sentimento como o ‘amor’ – serviço proposto pelo meca-filho – Não poderia ter outro desfecho posto que a convivência, que permite a formação do amor, foi simplesmente ativada por um processo de decisão imatura e impulsiva de uma mulher desesperada, com as suas capacidades mentais abaladas ainda por não ter se dignado sequer viver o ‘luto’ por seu filho “morto” cujo corpo sequer fora enterrado. O “filho morto” na verdade estava providencialmente congelado esperando que sua doença finalmente pudesse ser curada pela evolução médica. E o foi. É justamente no ponto de retorno desse filho real que o meca (cujo amor tinha sido ativado para sempre) retoma o status de robô (diante dos pais) que lhe dignam a atenção que se dá a um aparelho qualquer. Na competição entre o menino e o robô pelo amor da mãe, quem acaba descartado é justamente o brinquedo (como era de se esperar)

A segunda parte, por sua vez, beira o surrealismo onde o robô se ‘espelha’ no conto do “Pinóquio” para tornar-se um menino com o objetivo de ter correspondido o amor (artificial) que lhe foi ativado. A retórica desta parte cumpre o seu papel de gerar no público a sensação de que o robô (visivelmente uma criança) tem sentimentos reais e faz com que se prenda a atenção nessa busca pela mágica que possa reverter a situação de abandono e desprezo.

Nesta parte, o garoto-robô tem a companhia de um robô-de-programa, isto é, um Meca destinado a prestar serviços ‘sexuais’ que o ajuda a vencer os perigos reais do ambiente sombrio de realidade em que se encontram.

O que me pareceu do filme é de que o argumento se perdeu em algum momento, desfocado do que talvez tenha sido seu objetivo quando foi idealizado. Há três coisas que se pode, a meu ver, extrair do(s) argumento(s) de Inteligência Artificial:

  • A perda e ansiedade na tentativa de substituição para itens que são (ou deveriam ser) únicos – a Pessoa.
  • O desejo incontrolável da humanidade em se tornar uma divindade capaz de criar uma criatura “à sua imagem e semelhança”
  • O Medo inerente da evolução tecnológica sem o devido respaldo ético.

O projeto do meca-filho foi um sucesso [sic] se considerar o objetivo de que o robô serviria a seus donos com o “Amor”. Os cientistas que o idealizaram não consideraram um modelo de reciprocidade – componente fundamental para a manutenção do amor. Isso tem uma conotação que remete ao egoísmo inerentemente humano que exige ser amado, e agora. Exige ser satisfeito até que fique enfadado pelo uso do brinquedo novo.

Em um determinado momento, o meca-filho encontra-se com o seu “criador”, o cientista, e depara-se com uma sala repleta de réplicas suas em caixas como em grande loja de brinquedos.

O filme termina com o ‘meca’ no fundo do oceano repetindo “seu” desejo de tornar-se um menino… por dois mil anos.

A aplicação direta para a prática docente provocada pelas reflexões promovidas por este filme é de que o professor deve, como mediador, observar as características inerentes de seus mediados, suas expectativas perante a vida e os benefícios de seu aprendizado para lidar com as questões inerentes da convivência humana, em especial, o gerenciamento das consequências das trocas afetivas realizadas durante o processo de aprendizagem.

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