O tempo e a pressa

 

Todo o anseio ocorre no

Tempo Certo

nem antes

nem depois

Tudo ocorre no tempo certo

e o tempo

que torna

perene a minha alma

poeira a minha casca

e passa manso

a lembrar-me

calmamente

que é meu algoz e senhor

e eu que insisto

em vão

torná-lo escravo

(posto que é patrão)

(posto que é Feitor)

(posto que é grilhão)

Tempo esse que

corroi toda a minha entranha

e faz juz

à fama

de refrigério da alma

que espera

calmamente

pelo dom da paciência

que

normalmente

chega

quando dela não careço mais!

(Mauro Zamaro – Maio/2011)

 

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(esta ilustração acima teve a devida autorização do autor, o amigo JBosco – Lápis de Memória)

Otempoeapressa (Medium)

Quais são as relações entre Ciência, Filosofia e História?

Antes de tudo, há de se pretender compreender um pouco mais do que representa cada item proposto para daí estabelecer uma ou mais relações entre eles.

A começar da história, esta trata narrar, documentar e analisar os fatos e seus desdobramentos nos aspectos sociais (política, economia etc) para que se possam compreender os motivos para os acontecimentos.

A ciência, por sua vez, preocupa-se com a consolidação do conhecimento adquirido pelo homem ao longo dos tempos.

Já a Filosofia permeia o espaço da crítica com base na razão e questionamentos acerca das percepções humanas retratando em seu sentido supremo o “uso da razão”.

Puramente por suas definições, uma relação coloraria entre as três é a de que, em si, não é possível distinguir quando uma ou outra está sendo empregada ao longo do desenvolvimento humano.

A história usa da filosofia e da ciência para exercer seu papel de análise e documentação dos fatos pertinentes à humanidade.

A filosofia, por sua vez, permeia o uso de qualquer parte da razão independente do objeto em questão (seja a história ou a ciência), pois é o emprego da razão em sua plenitude.

A ciência, por sua vez emprega as outras duas para compreender as novas percepções usando as informações adquiridas e manipulando-as com a razão.

Cada parte empregada em maior ou menor grau, em cada momento depende das outras para que seus objetivos sejam alcançados em plenitude.

Filosofia da educação (uma visão ácida, mas honesta)

 

(outubro de 2008)

Prelúdio

Há de se pensar no termo filosofia como algo intangível à maior parte dos seres pensantes [sic].

Pensante? Creio ser este o adjetivo com menor adequação à grande massa dos famintos do saber. Seja por medo ou por conveniência, pensar deixou de ser a ação padrão do homem padrão, funcionário padrão cuja forma mais sensata e a roupa que melhor lhe serve é o uniforme da servidão.

E o que faz o alfaiate do saber? Avia a linha da informação fingindo tecer a seda do conhecimento e simulando uma costura que não combina com a vestimenta padrão dessas pessoas de cor cinza?

Sem pretensão de tornar esta leitura prazerosa, tentar-se-á discorrer nesse humilde texto alguns aspectos sobre a Filosofia da Educação sob uma ótica embaçada e míope que enxerga pouco mais do que se pode fazer por esses infelizes em curto prazo para que se tornem pessoas.

O que é filosofia?

Ao tentar derrubar, tal como se tenta fazer com um obstáculo, o preconceito existente sobre a filosofia, podemos querer fazer algo maior do que nossa capacidade permite: Tentar defini-la.

O que se pode fazer é chegar a uma aproximação limitada e distorcida sobre a semântica do termo e não se pretende fazer nada além nessa seção.

Filosofia é o resultado e o meio pelo qual o homem tenta produzir sua realidade e identidade. Isto posto que o homem, por meio de sua relação com o meio em que vive, seja capaz de estabelecer e consolidar conhecimentos a partir do pensamento ao longo de sua história.

Ao se considerar os conceitos de práxis, poiésis e theoria como movimentos inerentes à relação humana com seu meio temos que a filosofia é fruto das relações éticas e políticas (entre seres pensantes), da produção de pensamento e da consolidação do conhecimento humano ao longo da história.

Assim, pode se aproximar que, em última instância, a filosofia trata do conhecimento humano.

Conhecimento. Palavra ligeiramente perigosa que remete ao colorário de que esse implica em uma leitura crítica da realidade.

O conhecimento merece uma ligação direta com o conceito de Educação, posto que seja o meio natural de sua perpetuação.

Realidade Grega e seus impactos na filosofia

A origem da filosofia tal como conhecemos se confunde com a origem da sociedade grega. O “conhecimento” oriental pré-existente, devido ao seu cunho de objetivo prático voltado às questões do dia-a-dia, não tinha a pretensão do “pensar sobre o conhecimento”, isto é, de entender como o conhecimento é estabelecido e transmitido ou mesmo a pretensão da reflexão de como o conhecimento é construído pelo homem.

Da organização da sociedade grega derivam os primeiros conceitos filosóficos que foram refinando-se ao longo da história evolutiva (entenda-se aqui que isso ocorre através das mudanças promovidas pela força política nessa sociedade).

A evolução desses conceitos está intimamente ligada às questões de ordem política determinada pela organização da sociedade Grega. A migração do conceito do “Mito” existente na origem dessa sociedade para o “Logos” (razão) através da Tragédia é o melhor indício do uso deliberado de conceitos filosóficos para o estabelecimento da ordem societária. A tragédia, em uma extrapolação bem grosseira, pode ser considerada a “catequese” da formação humana com o objetivo de consolidar conceitos que usamos até os dias atuais como o conceito de Justiça (dike), Paidéia (formação), Pólis (organização estrutural da sociedade – cidade) e Sofrosine (calma – ou senso de ordem).

No primeiro momento grego (pré-socrática) há a origem do termo filosofia filos-sóphos e carrega consigo a ‘negação dos sábios’, isto é, o termo nasce, assim como a ciência filosófica, com uma natureza da negação, da rebeldia, da contestação. Neste tempo o objetivo era o ‘entendimento da origem das coisas’.

O momento posterior, o da antropologia, centrada no estudo do homem e de suas relações sociais, estabelece a educação como agente de controle da ordem da sociedade. É neste momento em que os formalismos educacionais são estabelecidos que, em síntese, transforma o homem e sua percepção de realidade de forma indelével e irreversível.

O método filosófico

Considerando a natureza contestadora original da filosofia citada acima, a organização do pensamento filosófico nos remete ao método como possibilidade e pressuposto à produção do conhecimento humano através da investigação criteriosa e imparcial com o objetivo definido de estabelecer a “verdade”, ainda que dependente do aspecto temporal do conhecimento com base na realidade tátil (concreta e fenomenológica) existente.

A realidade, por sua vez, é dependente da percepção sensorial do mundo físico que circunda o homem e, por isso pode gerar contaminação tanto nas premissas eleitas para a produção do conhecimento quanto na derivação lógica das conclusões baseadas nessas mesmas premissas.

Assim, o método pretende estabelecer critérios rigorosos para minimizar os efeitos dessas contaminações sensoriais.

Toda investigação baseia-se na busca do “motivo”. Assim, a produção do conhecimento humano é disparada pela pergunta elementar do “Por quê?”.

A busca da resposta do “porquê” das coisas permite ao homem imprimir sua marca e alterar significativamente sua realidade histórica. Tal busca, se conduzida pelo método científico, permite ao homem transformar a suposição inicial em constatação do fato e origem do “motivo”.

O método é o meio pelo qual o homem encara suas questões de forma objetiva a fim de procurar a melhor aproximação de “verdade” possível em seu contexto histórico.

O “senso comum”, em oposição ao método filosófico, não estabelece critérios objetivos para a produção efetiva da verdade, do conhecimento e não sustenta sua visão da realidade quando confrontado com as conclusões obtidas por meio do método. O caráter crítico e inquieto da filosofia desarticula a argumentação fragmentada do senso comum através da objetividade.

Filosofia da educação

A evolução da filosofia em seu mote de produção e consolidação do conhecimento humano ao longo da história sugere seu forte vínculo com as questões educacionais e de formação humana.

Tanto a corrente empírica quanto a corrente racionalista, por meios e métodos distintos buscam promover a produção do conhecimento conforme sua importância de aplicabilidade (a prática para a corrente empírica e a idéia/conceito para a corrente racionalista). Ambas convergem sobre a aplicação do método e o uso da razão para o estabelecimento da verdade.

Seja pela essência ou pela existência, a aplicabilidade da filosofia da educação deve ser direcionada para fomentar a transformação da educação a partir de práticas elaboradas para este fim.

Conclusão

A filosofia, cuja natureza contestadora é inerente à sua origem, permite ao homem a construção legítima e contínua de uma base sólida e objetiva do conhecimento.

Como agente de formalização do processo de produção do conhecimento humano estabelece, por meio do método filosófico, uma ferramenta clara e objetiva para a produção e validação do conhecimento ao longo do tempo.

Independente das diversas correntes segmentais de adoção, a aplicabilidade da filosofia é o pilar do desenvolvimento do processo educacional.

A “graça” efetiva da filosofia é estar disponível e devidamente aplicada por meio de seus conceitos mesmo que a maior parte dos seres pensantes não tenha estabelecido sua percepção de que a filosofia é inerente ao conhecimento que os beneficia. E este fato, a meu ver, é a melhor tradução de sua importância, pois atinge a humanidade sem distinção sequer da percepção da influência da filosofia em cada vivência particular.

Referência

Silva, P. M. (Junho de 2007). Caderno de referência de conteúdo de Filosofia da Educação. (C. E. Claretiano, Ed.) Batatais, SP, Brasil.

O “EU” e a estrada dos tijolos dourados

Introdução

Vivemos em dias difíceis onde o tempo e a fome voraz por produção consome nosso tempo e, resignados, aceitamos a escravidão do TER em detrimento do SER.

Com base na coragem, razão e emoção deve ser possível mudar, ainda que em parte a visão de homem atual em busca da felicidade.

O cenário atual

O sistema capitalista nos moldes do neoliberalismo impulsiona o ser humano a ter uma postura altamente competitiva e egocêntrica calcada no verbo ter.

Devemos ter, consumir, produzir e aceitar resignados todas as imposições da máquina produtiva.

Somos convencidos por todos os meios de comunicação existentes de que somente seremos felizes quando atingirmos os mais altos salários após os cumprimentos de metas de produtividade que aumentam num ritmo além das capacidades fisiológicas, mentais, sociais e espirituais.

Devemos ser bons cordeiros em cercados, cubículos produtivos, focados em nossas métricas de produção.

Ganhamos algum dinheiro mas há sempre a sensação de que falta produzir mais um pouco.

Nossa carga horária de trabalho ultrapassa os limites do cansaço e as 24 horas de um dia parecem ser insuficientes para atingirmos todos os objetivos que aceitamos sem os devidos questionamentos.

Ficamos apavorados com a possibilidade de sermos substituídos por outros humanóides mais jovens e melhor preparados para o dragão do mercado de trabalho.

Nos dias atuais, não basta “matar um leão por dia” para sermos considerados aptos a permanecer em nossas colocações laborais e deixamos nossas esposas, maridos filhos e parentes em planos secundários de importância para satisfazermos o apetite voraz da máquina produtiva.

Em contrapartida, nossos governantes gerenciam a miséria oferecendo assistência social aos desfavorecidos para que se tornem também membros consumidores dessa cadeia alimentar da produção desenfreada. Esses usurpam o dinheiro público em favorecimentos pessoais. Usam os recursos destinados ao investimento na ‘evolução e bem estar’ da sociedade em destinos particulares com foco na própria evolução monetária e bem estar pessoal. Aceitamos essas coisas com a mesma indignação que usamos para calçar nossos sapados ao levantarmos pela manhã.

Podemos ser interrompidos em nossos horários de lazer com algum assunto urgente de trabalho.

Comemos em restaurantes “fast-foods” para não perdermos um único minuto de nosso tempo produtivo e, mesmo durante as refeições rápidas, somos interrompidos com o toque urgente do celular corporativo nos chamando a algo que não pode esperar uns míseros 15 minutos para ser resolvido.

Projetamos nossa felicidade em itens palpáveis que podemos comprar numa liquidação qualquer e acreditamos piamente que seremos felizes apenas quando tivermos aquela casa, aquele carro do ano, aquele telefone celular de última geração, aquele computador recém-lançado no mercado e que estará completamente obsoleto em menos de 3 meses.

Pedro Goergen [1] diz que “O primeiro e mais palpável reflexo da falta de perspectiva histórica se constata no enfraquecimento do sujeito.” e este parece ser um bom resumo da característica comportamental do homem dito “produtivo” nos moldes do sistema atual. Permitimos que nossa individualidade fosse consumida ou anulada para que o bem do sistema prevaleça e trocamos, num modelo próximo ao escambo, nossos anseios de satisfação por bens de consumo que nos satisfaça a frustração de deixar de lado nossos anseios de felicidade.

Segundo Manuel José Lopes Silva [2], “Desde Aristóteles que as máquinas foram

tradicionalmente consideradas como extensões artificiais das capacidades naturais do ser humano, como projecções dos nossos órgãos corporais.

Hoje em dia, com a introdução dos computadores, surgiu a tendência para descrever as acções humanas ou os processos naturais em termos algorítmicos para poderem ser simulados

informaticamente”. Assim, todas as “coisas produtivas” têm sido sistematicamente convertidas em processos produtivos e otimizados.

O desafio

Há de se considerar por base a eterna busca da “pedra filosofal” na qual o homem dissimula a busca pelo autoconhecimento. Este objetivo, em contraste com o cenário apático em que o homem se resigna à cadeia produtiva faz com que o homem sinta-se infeliz e perdido pois sua percepção de humanidade raspa às beiras da transformação em mero objeto autômato, seguidor de ordens e doutrinas.

Fazemos hoje o caminho inverso da “estrada dos tijolos dourados” descrito no livro de Lyman Frank Baum [3], “O mágico de OZ”. Passamos pela vida fazendo o papel inverso dos personagens descritos nesse livro. Ao inverso do Leão, deixamos nossa coragem ceder lugar ao medo da não aceitação. Ao inverso do Espantalho, entorpecemos nosso cérebro e realizamos cada vez mais tarefas meramente operacionais a fim de que o bem maior, o cumprimento das metas, seja alcançado. No pior dos moldes, ignorando os ensinamentos do Homem de lata, deixamos morrer nosso coração, nossa alma e tornamo-nos cada vez mais tecnicos. Desta forma, nossa Dorothy jamais poderá retornar ao “lar” do seu eu-interior.

A pergunta que este documento pretende fazer é: Haverá meios de o homem conseguir encontrar-se vivendo neste ambiente viciado?

O caminho dos tijolos dourados

Ao mesmo passo da personagem Dorothy, estamos perdidos num mundo totalmente desconhecido repleto de informações e conceitos totalmente novos e com um tempo muito escasso para conseguir “retornar ao lar”.

Iniciamos a caminhada com uma dica precisosa : “Siga a estrada dos tijolos dourados” e a iniciamos, sozinhos em busca do “auto-conhecimento”.

Ao longo do caminho nos deparamos com profundas dificuldades interiores cujos arquetipos são ilustrados nas figuras do leão medroso, no espantalho e no homem de lata.

Não há opção para seguirmos adiante ignorando os aspectos, cada um ao seu tempo, da coragem, da razão e da alma.

Por fim, o sistema pode tentar nos impedir mas, quando nos percebemos fortes e capazes racional e emocionalmente, encontramos finalmente o “sentido da vida”.

Há de se lembrar, porém, que não podemos fazer tal caminho sem a ajuda dos outros. É com as diferenças que aprendemos e refinamos a visão de homem que desejamos formar.[1]

Considerações finais

Diante de um cenário de apatia e egocentrismo, cabe a cada um tentar trilhar a sua “estrada dos tijolos dourados” em busca do seu conhecimento.

O caminho é longo e o tempo é curto mas com coragem, razão e emoção ao fim da jornada poder-se-á dizer “não há melhor lugar que o lar”.


[1] talvez por isso Lyman tenha personificado os aspectos a serem trabalhados em personagens diferentes.


Referências

[1] Goergen, P., EM FOCO: A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO ENFRENTANDO A PROBLEMÁTICA EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEA, http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-97022006000300011&script=sci_arttext&tlng=pt, aceso em 12/11/2007.

[2] Lopes Silva, M.J, As ciências do homem e da natureza de hoje, http://www.bocc.ubi.pt/pag/silva-lopes-ciencias-homem-natureza.pdf, acesso em 12/11/2007

[3] vários, O MARAVILHOSO MÁGICO DE OZ, http://pt.wikipedia.org/wiki/O_M%C3%A1gico_de_Oz, acesso em 12/11/2007.