Por força ou competência?

Há dois meios de estabelecer-se, a saber, pela força ou pela competência.

Cada meio têm sua motivação intrínseca e não se pode julgar, à revelia, qual é mais ou menos digno, especialmente se o objeto a ser conquistado, o poder, tem como meio a evolução do conhecimento.

Nossa visão ocidental sobre o desenvolvimento do saber no oriente parece míope e imatura pois a herança do conhecimento ocidental gerado na idade média, em uma aproximação bem grosseira, foi montado a partir de compilações e cópias dos fragmentos da memória dos gregos (providencialmente plagiada pelos romanos) e costurada aos remendos das interações mercantis com as fronteiras orientais.

Os orientais, por sua vez, tiveram tempo de sobra para desenvolver seu conhecimento ao longo de milênios. Tiveram tempo para depurar sua visão de mundo.

Em um aspecto as duas histórias de geração de conhecimento se confundem: a aliança da fé com o conhecimento para fortalecer um poder político.

Nesse ponto, os orientais fizeram-se valer mais da competência que da força e esse processo foi incorporado naturalmente e contaminou a o poder político com a fé. Talvez, por imaturidade histórica, ocidentais tenham preferido o caminho mais curto.

Como o catolicismo contribuiu para a construção do saber durante a Idade Média

Diversos fatores provocaram a consolidação do cristianismo institucionalizado na Igreja, entre eles:

  • A unidade da instituição “Igreja” constituída pouco antes do fim do império romano e sua ‘universalização’ permitiu que as correntes migratórias não afetassem a sua integridade.
  • O crescimento da aderência ao cristianismo nessa época, provocou seu crescimento e sua consolidação como fonte doutrinária e, por conseguinte, seu comando nos diversos reinos aumentava à mesma proporção da aderência popular. A igreja tornou-se a grande entidade “global” agregando em si o poder religioso e civil.
  • O gerenciamento da situação de poder exigia da Igreja a criação e difusão dos modelos educacionais, talvez disfarçados de “pregação do Evangelho”, que serviram em seus objetivos de manutenção/crescimento da aderência à “fé” e, não menos importante, da contenção dos hábitos de seus fiéis.

Assim, com o aumento sistemático de poder da Igreja na sociedade civil provocou a sua consolidação como fonte universal de sabedoria, pois agregava consigo tanto o poder Divino (A igreja era fonte única e indiscutível da verdade divina) quanto o poder civil/militar (A Igreja consolida-se como fonte ordenadora com forte influência direta sobre as lideranças dos diversos feudos espalhados pela Europa medieval).

Como em boa parte das situações de crise, os homens dessa época buscavam nas portas das igrejas, mosteiros e conventos o abrigo para garantir sua sobrevivência.

Consolidou-se também, com o aumento da força civil da igreja, o hábito de se enviar os herdeiros primogênitos dos nobres às instituições eclesiásticas a fim de que estes pudessem ser entregues à Deus (e a uma sorte melhor de educação, vivência e, de quebra, salvarem suas almas nos braços do representante divino oficial).

Servir à igreja era um bom (senão o melhor) negócio desta época.

Devido aos hábitos de se agregar pessoas à esta instituição, algumas das mentes privilegiadas do período medieval estavam diretamente ligados à ela, entre eles, Santo Agostinho, São Bento e São Tomás de Aquino que agregaram um valor inestimável à organização da doutrina e do modus operandi adequados ao cristão convicto e temente a Deus.

O gerenciamento do saber era de suma importância para a manutenção e crescimento da igreja, com isso, o saber efetivo estava disponível somente aos pertencentes ao clero (secular ou religioso) e, com os devidos filtros, aos adeptos do cristianismo através dos sermões das missas.

O fato do conhecimento e saber estarem disponíveis a pequenas porções das pessoas não significa que a produção desse conhecimento estivesse em mesma proporção à disponibilidade. Pode-se considerar um tempo significativo (algo em torno de 10 séculos) de produção de conhecimento (interno à igreja) aliado ao crescimento de seu poder secular em proporção ainda maior à geração de conhecimento. O aumento de poder se dava nesse período sem qualquer confronto.

Algumas mudanças sociais em torno dos séculos XI-XIII provocaram na igreja um pequeno desvio em sua estratégia didática e de difusão do conhecimento gerando a aproximação dos adeptos comuns do cristianismo aos hábitos antes restritos aos membros do clero. Assim, houve uma pequena abertura na difusão do conhecimento gerado pelo clero com o objetivo indiscutível de manter seu domínio e controle territorial e de poder. A disseminação do saber passou a ser presente também nas novas escolas catedráticas (agregadas às cidades).

A evolução natural das escolas foi a associação de mestres e alunos com interesses semelhantes gerando as primeiras universidades (com corpo próprio de gestão).

Um outro ente de disseminação do saber gerado pela igreja a ser considerado é formação das “Cavalarias” que, por força militar levavam o saber (junto à espada em defesa de suas moradas) aos novos espaços, normalmente comerciais, a serem conquistados.

Enfim, pode-se afirmar em resumo que o Catolicismo contribuiu, sendo virtualmente a única geradora de saber ocidental durante a Idade Média, com a consolidação do saber ocidental e sua centralização efetiva usando seu poder divino e secular para reunir os melhores pensadores dessa época assim como os recursos necessários para o financiamento da geração desse conhecimento. A vazão mínima e controlada dada à difusão do conhecimento gerado foi uma estratégia de manutenção da fonte geradora do saber dessa época. Sem essa estratégia, provavelmente a igreja teria sucumbido às crises seculares desse período.