Polifonia (2)

Fábula 1:

Um Leão, que dormia sossegado foi despertado por um Rato, que passou

correndo sobre seu rosto. Com um bote ágil ele o capturou, e estava pronto

para matá-lo, quando o Rato suplicou:

– Ora, se o senhor me poupasse, tenho certeza que poderia um dia retribuir sua

bondade. Rindo por achar ridícula a idéia, ele resolveu libertá-lo.

Aconteceu que, pouco depois, o Leão caiu numa armadilha colocada por

caçadores. Preso ao chão, amarrado por fortes cordas, sequer podia mexer-se.

O Rato, reconhecendo seu rugido, se aproximou, roeu as cordas e libertou-o

dizendo:

– O senhor riu da idéia de que eu jamais seria capaz de ajudá-lo. Nunca

esperava receber de mim qualquer favor em troca do seu; Mas agora sabe, que

mesmo um pequeno Rato é capaz de retribuir um favor a um poderoso Leão.

Moral da História: Os pequenos amigos podem se revelar os melhores

aliados.

Autor: Esopo

Fábula 2:

O leão, o burro e o rato

Um leão, um burro e um rato voltavam, afinal, da caçada que haviam

empreendido juntos e colocaram numa clareira tudo que tinham caçado: dois

veados, algumas perdizes, três tatus, uma paca e muita caça menor. O leão

sentou-se num tronco e, com voz tonitruante que procurava inutilmente

suavizar, berrou:

– Bem, agora que terminamos um magnífico dia de trabalho, descansemos

aqui, camaradas, para a justa partilha do nosso esforço conjunto. Compadre

burro, por favor, você, que é o mais sábio de nós três, com licença do

compadre rato, você, compadre burro, vai fazer a partilha desta caça em três

partes absolutamente iguais. Vamos, compadre rato, até o rio, beber um pouco

de água, deixando nosso grande amigo burro em paz para deliberar.

Os dois se afastaram, foram até o rio, beberam água e ficaram um tempo.

Voltaram e verificaram que o burro tinha feito um trabalho extremamente

meticuloso, dividindo a caça em três partes absolutamente iguais. Assim que

viu os dois voltando, o burro perguntou ao leão:

– Pronto, compadre leão, aí está: que acha da partilha?

O leão não disse uma palavra. Deu uma violenta patada na nuca do burro,

prostando-o no chão, morto.

Sorrindo, o leão voltou-se para o rato e disse:

– Compadre rato, lamento muito, mas tenho a impressão de que concorda em

que não podíamos suportar a presença de tamanha inaptidão e burrice.

Desculpe eu ter perdido a paciência, mas não havia outra coisa a fazer. Há

muito que eu não suportava mais o compadre burro. Me faça um favor agora –

divida você o bolo da caça, incluindo, por favor, o corpo do compadre burro.

Vou até o rio, novamente, deixando-lhe calma para uma deliberação sensata.

Mal o leão se afastou, o rato não teve a menor dúvida. Dividiu o monte de caça

em dois: de um lado, toda a caça, inclusive o corpo do burro. Do outro apenas

um ratinho cinza morto por acaso. O leão ainda não tinha chegado ao rio,

quando o rato chamou:

– Compadre leão, está pronta a partilha!

O leão, vendo a caça dividida de maneira tão justa, não pôde deixar de

cumprimentar o rato:

– Maravilhoso, meu caro compadre, maravilhoso! Como você chegou tão

depressa a uma partilha tão certa?

E o rato respondeu:

– Muito simples. Estabeleci uma relação matemática entre seu tamanho e o

meu – é claro que você precisa comer muito mais. Tracei uma comparação

entre a sua força e a minha – é claro que você precisa de muito maior volume

de alimentação do que eu. Comparei, ponderadamente, sua posição na floresta

com a minha – e, evidentemente, a partilha só podia ser esta. Além do que, sou

um intelectual, sou todo espírito!

– Inacreditável, inacreditável! Que compreensão! Que argúcia! – exclamou o

leão, realmente admirado. – Olha, juro que nunca tinha notado, em você, essa

cultura. Como você escondeu isso o tempo todo, e quem lhe ensinou tanta

sabedoria?

– Na verdade, leão, eu nunca soube nada. Se me perdoa um elogio fúnebre, se

não se ofende, acabei de aprender tudo agora mesmo, com o burro morto.

MORAL: SÓ UM BURRO TENTA FICAR COM A PARTE DO LEÃO.

Autor: Millôr Fernandes

As duas fábulas – metáforas potenciais de lições de comportamento social – retratam os pontos de vista das diferenças de poder e suas implicações.

Na primeira, a mensagem é para o forte para que se atente que a força deve ser empregada com moderação e não se deve subestimar a força do outro apenas por sua aparência frágil. O discurso é claramente direcionado aos grandes.

O segundo texto é um aviso para os fracos para que não se esqueçam de que, apesar de serem os potenciais melhores aliados dos fortes, é necessário manter-se vivo para que este potencial seja plenamente exercido no futuro. A mensagem, neste caso, é uma aparente antítese do primeiro discurso que tende a complementar o primeiro conceito apresentado.

A música do segundo texto é complementar à do primeiro – como uma ‘segunda voz’ que aceita a importância dos pequenos e que alerta para a necessidade da prudência desses no uso da sua ‘importância’ na sustentação dos fortes.

O principal elo entre os dois textos é o uso dos mesmos elementos figurativos – o leão e o rato, respectivamente como simbolismo do forte e o fraco – e suas relações sociais.

O burro no segundo texto é um mero ruído de apoio à transmissão do alerta ao ‘rato’. Está ali porque é BURRO, pois se fosse esperto, não se metia na conversa entre leões e ratos.

Polifonia

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Sobre a polifonia nessas imagens

O contexto do quadro de Velázquez remete, além das regras da escola artística barroca, a uma subordinação do artista à realeza, mesmo contento as mensagens subliminares de que, o artista é membro efetivo da cena e merece o seu devido destaque pois se ‘inclui’ na intimidade da família real.

Os ícones dessa intimidade retratam – ainda que de forma tímida – quem ‘manda no pedaço’, a saber, o casal real refletido no espelho no ponto de fuga à esquerda e a pequena princesa ao centro da tela. As principais mensagens enviadas ao longo dos séculos por esta pintura foram devidamente captadas pela releitura dessa mesma cena realizada em 1957 por Pablo Picasso, a saber, do agregado não compromissado à porta da saída do atelier, da anã gananciosa, dos parasitas religiosos que se aplicavam em cuidar dos infantes talvez devido ao conforto proporcionado pela corte e suas possíveis confabulações sobre os circundantes, o garoto impertinente que insiste em ‘reinar’ com o pobre cão que estava alí apreciando o movimento além da própria posição estratégica e enaltecida do pintor (Velázquez) no quadro original.

Picasso, valendo-se do expressionismo (ou cubismo – não consegui distinguir o melhor encaixe para a releitura) ressalta a aparência horrenda da anã gananciosa, a função insossa dos religiosos responsáveis pelo cuidado da infanta, a figura disforme do agregado à porta, o garoto impertinente. Picasso, provavelmente pela raiva – ou paixão – que lhe motivava na maioria das vezes superlativou a percepção da importância de Velázquez e sua obra. Talvez quisesse ele endossar o desejo contido do mestre barroco de ter sua posição efetivamente reconhecida em meio a tantas mediocridades que eram, naquele tempo, enaltecidas.

Picasso tenta, em sua releitura do quadro de Velázquez, reproduzir todos os elementos de desenho existentes em suas devidas posições com a sua própria visão das importâncias ou ênfases da mensagem original.